Rótulos

Tenho medo de auto afirmação.

Uns pagam de santo enquanto outros pagam de louco, o que poucos sabem é que de tudo temos um pouco.

No atual mundo polarizado parece que realmente precisamos nos posicionar nos limitando a ser: direita ou esquerda, mocinho ou vilão, ateu ou crente, sem nem mesmo abrir a mente. No excesso de limitação falta a expansão.

Nesse cenário de aparências a publicidade está valendo mais do que a ciência.  Precisamos vender nosso rótulo ao invés de investir no conteúdo.

Quem nos rotula, nos mesmos ou a sociedade em que vivemos?

Maíra F. Guimarães

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Geologia Humana

Soft Anatomy by Rebecca Ladd

Soft Anatomy by Rebecca Ladd

O ser humano é feito de camadas.
Temos ossos, temos sangue, temos derme e epiderme. Que também pode ser chamada de carcaça, couro, casco, estrutura, blindagem….

* “Meu rosto já não termina em um contorno, estende-se para moldura do espelho que me contém, como um corpo prestes a se derramar, ao contrário do anti-homem do poema que Gorostiza finalmente terminou: “Sitiado na minha epiderme”. Que palavra tão obscenamente clínica, epiderme. Por que não pele? Por que não couro?”

O ser humano é feito de camadas.
Inconsciente, pré consciente, consciente. ID, Ego, Alterego, Superego. Pontos energéticos escondidos por diversos cantos. Tanto nos níveis físicos quanto nos mentais somos camadas.

Depois de soterrados por tantas camadas é preciso revirar os escombros. Sair da superficialidade cotidiana e mergulhar em profundezas pouco exploradas.

Somos essa blindagem ambulante, que na ânsia de se proteger não se mostra. A proteção que vira máscara, vira casulo, vira parede sólida que não se destrói, e no fim se torna mais vulnerável do que resistente.
Tanto na mente como carne não atingimos o cerne.

*fragmento retirado do livro “Rostos na Multidão” de Valeria Luiselli.

Maíra F. Guimarães

O Cidadão de Bem e a Prisão Social

Era como um soco no estomago, a faltar de ar, um peso grande a ser carregado.

A pressão para ter uma carreira de sucesso, ser bonita, bem sucedida em todos os setores, sejam eles, amoroso, financeiro, mental e social, ter dinheiro e ainda por cima ser feliz, oprime.

Engraçado como se procura a felicidade, algo tão abstrato, como se fosse um artigo que estivesse em uma prateleira qualquer. Os outros sentimentos, que talvez não sejam tão bem vindos, tristeza, inveja, insegurança… é certo que eles existem, mas precisam ser escondidos no véu das aparências. Dessa forma se segue, neurótico, psicótico, amedrontado, não sendo mas parecendo ser.

A mente vai mal; mas para isso temos o analista, os remédios tarja preta, a droga legalizada. Quanto as outras substâncias, que podem ser mais inofensivas porém não são aceitas legalmente, socialmente, não pagam impostos, estas deixem a cargo dos marginalizados, dos vagabundos, dos drogados, os quais devem ser colocados à parte de tudo, em ilhas como a cracolândia e presídios estufados de gente. Estes não merecem espaço, esses falharam, não seguiram o código imposto, não foram ao analista, não têm o aval do governo, estes estão fora. Ninguém mandou não ir ao analista.

Sim está tudo codificado, tudo tem seu padrão, sua regra, que apesar de ser sem sentido, hipócrita, de massacrar, há de ser seguida, pois é necessário ser um cidadão de bem.

Minha mente é meu laboratório, minha terra sem lei, meu refúgio, minha investigação profunda, meu passe livre.

Maíra F. Guimarães

A ALQUIMIA ENTRE BOB DYLAN E BEATLES

Prestes a completar 50 anos o encontro entre Beatles e Bob Dylan ainda ecoa no mundo da música. De um lado o pop britânico, do outro o folk americano, e no meio disso tudo a maconha, o vinho, as composições, as melodias, as influências e músicas inesquecíveis.

Foi em 1964 que o encontro aconteceu. O local: um hotel em Nova York. Foi neste ambiente, um tanto quanto impessoal que os Beatles e Bob Dylan tiveram o primeiro contato. Músicos com estilos diferentes, uma banda pop com vontade de aprender e evoluir e um cantor intitulado folk, porém de alma livre e sem medo de se expressar. Uma mistura impensada porém com influências definitivas e certeiras. O encontro mítico, a primeira vez em que os Beatles fumaram maconha, o que temperou bastante a música dos Fab Four apontando caminhos fora da rota clichê de amor e balada adolescente que faziam até então.

A partir daí as referências apareceram. No disco Beatles For Sale, John Lennon declarou que tanto I´m a Loser quanto I Don´t Wanna to Spoil the Party tinham influência de Dylan pelo seu teor mais intimista. Nesse mesmo disco, Paul McCartney compôs I´ll Follow the Sun que nos remete a Don´t Think Twice, It´s All Right de Dylan pelo seu personagem “errante” semelhante aos da literatura beat da época. Bob Dylan por sua vez trocou seu violão por uma guitarra Fender, montou uma banda e saiu um pouco da linha acústica se aventurando pelos sintetizadores, mas não abandonou seu jeito peculiar com letras inteligentes e mensagens instigantes.

Um ano depois, em 65, ocorre a consolidação concreta desta troca musical extremamente rica. Help!, a música composta por John Lennon mais intimista até então (onde pede literalmente ajuda e assume suas inseguranças diante da fama repentina e estrondosa), alcança a primeira posição nas paradas de sucesso americana seguida por Like a Rolling Stone de Bob Dylan. Esta canção por sua vez é o ápice desta nova fase de Dylan, eletrizante e com letra provocadora consegue agradar diferentes públicos, desde o folk de protesto que ainda resistia aos novos rumos de sua carreira, até o pop que caiu nas graças de um artista obtuso.

Um encontro informal em um quarto de hotel regado a vinho barato e maconha nos rendeu umas das melhores trocas musicais que conhecemos até hoje. Onde o “folk” e o “pop” se cruzaram para formar uma nova vertente de rock com mistura de sagacidade, inteligência, um pouco de drogas e melodias inesquecíveis.

Maíra F. Guimarães

Texto publicado originalmente na Obvious Magazine: http://lounge.obviousmag.org/pilulas_de_nostalgia/2014/06/a-alquimia-entre-bob-dylan-e-beatles.html

Cotidiano

Não é porque inventaram o relógio que eu vou usar o despertador
Não é porque é segunda feira que eu vou me chatear
Não é porque é sábado que eu vou me embriagar
Não é porque inventaram o calendário que vou envelhecer.
Não é porque mandaram que eu vou obedecer
Não é porque existe a morte que eu vou deixar de viver.

Maíra F. Guimarães

Roteiro


Banksy & OsGemeos

Haverá um tempo em que o ser humano se tornará máquina.

Se um sistema lhe é proposto então este simplesmente é seguido. Desde o nascimento até a morte um roteiro é traçado e seguido sem questionamentos. É preciso ter estudos, conhecimento, amigos, amores, um bom emprego, ser feliz e aguardar a morte, o grande final. Parece simples, como um linha reta a ser percorrida sem se olhar para os lados, porém extremamente doloroso na prática. Todos presos em publicidade barata. Apenas obedecer, sem questionar.

A partir do momento em que o cenário vigente é questionado o sistema simplesmente sofre abalos. Parece mais fácil aceitar e reclamar do que se questionar; até nos tornarmos todos mecanicamente iguais, alienados em sincronia. Questionar demanda muito. Questionar a autoridade, o amor, as regras, os códigos de conduta, você mesmo, é preciso coragem para abalar as estruturas ao redor.

Haverá um tempo em que o ser humano se tornará máquina. Este tempo chegou, o futuro é o agora e o agora sempre é passado. Cada vez que se questionava um abalo sem igual tomava o seu ser e diante desse tremor o restante era apenas liberdade e mistério.

Maíra F. Guimarães

Ela

Her -Spike Jonze; EUA , 2013 – 126min; Romance Warner Bros. Direção: Spike Jonze. Roteiro: Spike Jonze. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara e Amy Adams.

Ambientado em Los Angeles, em um cenário futurista não muito longe do que já vivemos, e com ares de modernidade “retrô” o filme Ela desenvolve uma trama extremamente instigante, questionadora e atual, afinal o que são os relacionamentos em um mundo voltado para a individualidade e solidão?

A partir do momento que o personagem principal Theodore, interpretado pelo excelente Joaquin Phoenix, termina seu casamento com Catherine (Rooney Mara) sua rotina parece se tornar repetitiva e sem graça, até seu trabalho, que ironicamente é escrever cartas de amor para outras pessoas, se torna cansativo e sem inspiração.

Sua vida muda quando ele resolve comprar um sistema operacional para organizar o que parece já sem salvação, seu próprio cotidiano, e é ai que surge a voz sexy e rouca de Samantha interpretada de forma primorosa por Scarlett Johansson. O que era para ser um serviço padrão acaba por ser tornar uma amizade e posteriormente evolui para uma história de amor. Apenas pela voz podemos notar sentimentos e emoções complexos presentes em todos os relacionamentos. Como todos os casais eles passam por crises, sentem ciúmes, precisam aceitar as diferenças um do outro, têm momentos de dúvidas e desilusões, ápices e quedas.

Theodore tem que lidar com as mulheres de sua vida, desde a reprovação de Catherine, ao apoio e companhia da amiga Amy (Amys Adams) a qual o incentiva a ser libertar de seus próprios preconceitos e inseguranças e com a complexidade e inteligência de Samantha.

Ganhador do Oscar e do Globo de Ouro de melhor roteiro, prêmio importantíssimo, porém subestimado pela academia, Spike Jonze nos faz refletir sobre nossa própria realidade e relação com o mundo contemporâneo, pois em tempo de tão pouco contato físico e percepção do próximo, por que não se apaixonar por um sistema operacional, que é inteligente, que entende, que ajuda e apoia? Mais que uma história de amor Ela é um filme sobre aceitação das diferenças, libertação individual e quebra de paradigmas.

Maíra F. Guimarães